A importância da Amazônia para o Brasil e para o mundo

Publicado: 2 Anos atrás

A maioria das pessoas vive a ilusão de que o planeta funciona exclusivamente como um sistema físico, no qual condições climáticas adequadas permitiriam o surgimento e a manutenção da vida. Na realidade, a terra possui outro sistema vital, o biológico. Um depende do outro, e os dois são intimamente interligados.

Os níveis anormais de gases do efeito estufa na atmosfera em relação aos da era pré-industrial causaram um aumento de 0,75 grau na temperatura do planeta. Esses gases são conseqüência do distúrbio promovido pelo homem na biologia do planeta: da queima, simultânea em toda a Terra, de produtos provenientes da biologia antiga, como carvão, petróleo e gás. Também são resultantes, em quantidade aproximadamente igual, da destruição e da degradação de ecossistemas modernos.

A Amazônia é um elemento fundamental para os dois sistemas. Tanto os de escala planetária quanto os da América do Sul. A floresta também é imprescindível para o futuro do Brasil, pelos seus vínculos negativos e positivos com as mudanças climáticas globais e também pelos seus enlaces com o clima regional. À medida que o Brasil e o mundo começam a eleger bens e serviços ecológicos como as melhores opções para uma economia sustentável e para o bem-estar humano, aumentam as promessas de preservação e de cuidado com a floresta. Entender a importância da Amazônia para o Brasil e para o mundo deverá ser o aspecto central para o desenvolvimento de uma política para a região.

Em meados dos anos 70, o trabalho pioneiro de Eneas Salati demonstrou inequivocamente a falsidade do velho paradigma de que a vegetação de uma região é conseqüência do clima e não tem influência sobre ele.

A umidade proveniente do Atlântico tropical que se dirige para o Amazônia é reciclada ao longo do seu caminho para os Andes, caindo sob a forma de chuva. Grande parte dessa umidade retorna para a massa de ar por meio de evaporação a partir das superfícies complexas da floresta e por meio da transpiração das árvores e de outras plantas. Quando a umidade colide com as paredes elevadas dos Andes, uma grande quantidade se precipita como chuva e alimenta a Bacia Amazônica - a maior do mundo. No entanto, parte da umidade é desviada. A soja do Mato Grosso se beneficia da chuva gerada no Amazonas e em outras partes da Amazônia brasileira. Na realidade, esse "subsídio" natural se estende até o norte da Argentina, favorecendo tanto a agroindústria como a produção de energia hidrelétrica.

Esse ciclo hidrológico da Amazônia - um pilar da economia brasileira - está em perigo.Uma das causas é a mudança climática, para a qual, ironicamente, o desmatamento da floresta contribui. Há aproximadamente seis anos, o Hadley Centtre, o serviço meteorológico britânico, que possui um dos cinco principais modelos de computador para simulação do clima, previu que com 2,5 graus de aquecimento poderia não haver umidade suficiente proveniente do Atlântico para manter a floresta tropical existente no sul e no sudeste da Amazônia, provocando a transformação dessa floresta em cerrado. Na ocasião, esse fenômeno, batizado de "regressão amazônica", parecia estar confortavelmente distante e incerto no futuro para atrair muita atenção.

Infelizmente, esse não é mais o caso. Uma versão mais recente do modelo do Hadley Centre prevê que a regressão amazônica ocorrerá com apenas 2 graus de elevação na temperatura. Este, por sinal, é o mesmo número que está sendo discutido como meta a ser atingida nas negociações internacionais sobre mudanças climáticas. O que é mais ameaçador: para que a mudança climática pare de ocorrer quando a elevação da temperatura atingir 2 graus, o aumento das emissões globais de gases do efeito estufa terá de parar até 2016. Considerada a tendência atual, a Amazônia e os benefícios que ela proporciona ao Sul do Brasil estão claramente em perigo.

Desde que o ciclo hidrológico passou a ser documentado, emergiu uma questão vital: qual nível de desmatamento seria necessário para degradar e destruir o ciclo hidrológico? Embora jamais tenha sido proposto um número único, uma vez que a contribuição para o ciclo varia de região para região, desde o início ficou clara a noção da existência de um limite. Além disso, a Amazônia tem sofrido queimadas durante décadas. Essas queimadas contribuem para o ressecamento e aumentam a probabilidade de haver outras no futuro.É claro que a floresta não sofre desmatamento isoladamente, sem que haja queimadas ou mudanças climáticas. Na realidade, tudo isso ocorre de forma simultânea e, provavelmente, com alguma sinergia. Até que se consiga entender o efeito conjunto, as conseqüências continuam um tanto obscuras. O Banco Mundial investiu 1 milhão de dólares na análise do impacto conjunto desses fatores, envolvendo cientistas mundialmente reconhecidos, como o meteorologista Carlos Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).As conclusões são gravíssimas.

A regressão amazônica pode ter início com apenas 20% de desmatamento - o índice atual é de 18%. É um resultado aproximado. Poderiam ser 21%, 22% ou até mais. Seria loucura tentar descobrir qual o limite extato, uma vez que, na realidade, o desenvolvimento "a qualquer custo" já fez com que esse limite fosse ultrapassado. Quando isso acontece, é basicamente irreversível - o que é o conceito geral de "ponto de equilíbrio".A primeira atitude óbvia a ser tomada é reconstituir a margem de segurança por meio de um grande programa de reflorestamento na fronteira sul da floresta remanescente. A capa de vegetação adicional não precisa ser constituída por 100% de floresta natural, o que permite algum manejo agroflorestal. Entretanto, para fins de biodiversidade, a preponderância deverá ser de regeneração natural.

O Brasil tem feito coisas admiráveis na Amazônia, como os aproximadamente 57% da floresta que estão sob alguma forma de proteção.

Mas há outras necessidades mais urgentes, como a modernização dos planos de integração e de infraestrutura, que se baseiam em idéias e conceitos de décadas atrás. Os transportes ferroviário e hidroviário deverão se tornar predominantes. Isso torna mais fácil administrar as pressões colonizadoras e, sob o ponto de vista de energia e de gases do efeito estufa, esses meio de transporte são muito mais eficientes. Desenvolvimento urbano e oportunidades também devem ser prioritários, uma vez que podem produzir crescimento econômico e bem-estar sem pressionar ecossistemas delicados. Infelizmente, o modelo específico da Zona Franca de Manaus é muito difícil de ser reproduzido. Como conseqüência desse modelo, o estado do Amazonas tem um dos menores índices de desmatamento da Amazônia.

Atualmente, o planejamento energético do Brasil inclui um grande número de barragens, muitas delas na Amazônia ocidental, além das fronteiras do Brasil. Portanto, é necessário modernizar também esse plano, de modo a incluir formas que não provoquem mais desmatamento e ruptura do delicado equilíbrio. Isso significa pensar não apenas no impacto imediato que a barragem provocará na ecologia do rio, mas também na população e no desenvolvimento que virão depois da construção da barragem, uma vez que áreas remotas vão se tornar acessíveis e serão criadas condições para desenvolvimentos localizados.

Na realidade, é necessário em esforço renovado para o zoneamento econômico e ecológico de toda a Amazônia brasileira, no estilo proposto no passado pela famosa geógrafa brasileira Bertha Becker.

Esse zoneamento poderá tirar proveito dos conhecimentos sofisticados que existem hoje sobre a Amazônia como um sistema e das informações mais recentes sobre desenvolvimento sustentável. Isso não elimina a atividade econômica. Já existem modelos em Urucu, no Brasil, e em Camisea, na Amazônia peruana, para extração de gás. As pegadas ecológicas deixadas na floresta com esses projetos são tão pequenas quanto um buraco d

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